quarta-feira, 15 de junho de 2011

Coletânea

Caminhos
Decididamente, o que fazer?
“Não tem nem dúvida,
dobre à direita e siga em frente, é logo ali...”
(disseram que é impossível não se ver)
Uma segunda, o freio, a curva, a rua reta...
(‘tá bem, mas e aí, cadê?)
“É toda a vida em frente”
(enfrente)
Mas, decididamente,
Será mesmo esse o melhor jeito de escrever?


“... não mentem jamais!”

O que é fascinante sobre as cartas do tarot é que elas sempre nos apresentam duas opções, e muitas, muitas entre essas duas. Ou nos ameaçam com nossos maiores temores ou nos brindam com o vislumbre de nossas melhores expectativas. A opção sobre a qual decidirmos dirigir nosso olhar será, como consequência, aquela para a qual nós, muito provavelmente, caminharemos.


Rush

E cai, e vai
Mas só vai para o que se quebra
E cai
E quebra e cai
Mas cai com fé
No que mascava e cospe
E dá no pé
E dá no pé
Na pressa tal
Que corre e cai, e corre e cai
Mas não faz mal
Mas não faz mal
Que segue e vai
E logo chega onde não mais se cai
Onde não mais se vai
Onde se entra e nunca mais se sai.

  
Pena
Dá pena
da pena
que mancha com tinta
só manche, não sinta
a cor do papel
dourada, pequena
calada, consinta
trilhar um caminho
não dela
mas meu


Legado

A mim sobrou o consolo das palavras
Daquelas que ao dizer eu já sabia
A espera inconsequente das miragens
Das mil passagens que eu procuro todo dia

A mim sobrou o fogo das viagens
De todas que eu já fiz e não farei
Sobrou a cor e o som das paisagens
Os instantâneos que eu cliquei e não perdi

Sobrou até em mim, de mim um pouco
Que por usura ou por prudência não gastei

Quanto sobrou em mim, de mim o louco?

Quanto é esse pouco?

Sobrou a dúvida, não sei.


 Exceção

Não se morre na primeira pessoa
Tal seria
Vai que doa...


Arremedo
Porque nasci pra ver a vida assim
sem medo?
Se o medo que se instala, contraria

Porque eu tinha que ser assim
um arremedo?
Do que eu sei que sou, mas gostaria...


Beijos

Que falta dos seus beijos
Em falta com meus beijos
Furtivos, benfazejos
Seus beijos

Podiam estar aqui, bem que podiam
O úmido, sua boca e minha boca
Seria tanto e ainda é tão pouca
Toda essa coisa tão difícil de explicar

Porque soa tão denso, sentimento?
Penso e não acho
Tenso, relaxo
Que mais se há de fazer?

Trago comigo um quê desse seu gosto
Guardo aqui mesmo, o jeito, seu olhar
Amargo este momento, vejo seu rosto
Busco aqui dentro um jeito de esperar

Seus beijos


Fumaça

Os círculos que fazem minha fumaça
(eu fumo ainda)
e às vezes paro só pra ver
a dança que consome, que entrelaça
e como tudo, passa.
(acendo outro cigarro pra entender)



Sonho

Sonhando
Sonho-sopro do destino
Segue o soldado, a solitária saga
A sina, a seta, a sorte, a senha, o sino
E a sólida certeza que o afaga
Mas quanto mais se empenha
É seu contrato
Não sucumbir ao som do desatino
Mais some em meio ao mato
E mais se embrenha
Soca e sufoca
Subalado paladino


Paixão
Eu quero os cachos que se enrolam em seus cabelos
Eu quero tê-los, não importa mais por que
Quero tocar, quero cheirar, eu quero vê-los
Como a inundar em mim as ondas de você

Eu quero as curvas que contornam suas ancas
Quero suas peles brancas e ficar à sua mercê
Quero beijar, quero beber, loucuras tantas
E me aninhar nas carnes róseas de você

Eu quero tudo, e mais, eu quero um pouco
De todo o amor que eu sonho receber
Quero gritar minha paixão, e então já rouco
Falar baixinho que eu sou louco por você


Amor

Eu amo seu calor, como amo o dia
Acordo, abraço, rio e amo mais
Eu amo ter você, já me esquecia
Que bom que pode ser amar demais

Eu amo seu olhar, como amo a noite
E sigo adentro, mágico luar
Eu amo tudo de você, amo tão forte
Por muito e mais, se mais se pode amar

Eu amo seu sorriso, amo as estrelas
Eu amo seu abraço, amo saber
Que estar em seu regaço é como tê-las
E tê-la assim me faz sentir: amo viver